Obsidiante

E eu fumo-te como a esse cigarro que chega sempre depois da turbulência. Como a esse cigarro que marca sempre o fim, o ato consumado e a comunhão entre duas vontades. Inalo ar e fumo, até ao exato segundo em que tudo são apenas cinzas, fragmentos orfãos de pó.

Como a esse cigarro a que sempre impelimos o peso do mundo. Como esse, a que desesperadamente prendemos os lábios, esse a que entregamos saliva e que esgotamos com sofreguidão. Esse que sorve palavras, esse que nos protege de um diálogo a que fazemos por fugir. Esse.

E o piano volta e com ele a maldita verdade. A verdade de que tu serás sempre todos os cigarros. A verdade de que tu estarás sempre por entre as cortinas de fumo onde anseio para que o desejo se dissipe. Esse desejo melífluo, perene, sagaz.

E em todos os momentos em que me esgoto para que a exaustão chegue e me derrube, são as tuas mãos que voltam para me escravizar. Sinto sempre a pele rasgar nesse tempo em que tudo não é mais do que uma luz que me penetra e me rouba os sentidos.

Fecho os olhos, e tu também ouves o piano.

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