Monthly Archives: Julho 2016

Apoteótico

Guardo esse sabor no meu palato, e quando chega esse frio, vou sorvendo sofregamente o que deixaste lá. E cada gota que esmago e dilacero entre os lábios, traz o barulho dos botões que caem no chão, uma porta que se fecha e outra que se abre e a luz de um dia que acaba e outro que começa. Essa luz que tem tanto de ténue como de irascível e através da qual vejo a nudez de cada centímetro de ti.

E agora que esgotei todas essas gotas, exploro em lugares desconhecidos por resquícios do que sempre fica. Um ímpeto de te poder reencontrar por entre as minhas entranhas. Os meus dedos viajam enquanto o piano grita melodias a que ainda desconheces o compasso. É tudo meio violento e meio selvagem. E no final, apenas essa abrasão sem recompensa.

Fechar os olhos mais uma vez. Voltar lá. Sentir essa febre que deixas por entre os lençóis. Acordar depois da revolta e não encontrar nada além do silêncio e do teu respirar. Mastigar esse momento, em que nada mais existe. Esse momento em que tudo é exatamente o que deveria ser.

Pecaminosamente bom. Sem razão.

Cobrir

E mesmo quando é mau, é bom. Mesmo quando me deixas avistar o precipício e depois foges. Mesmo quando me deixas a conter esse calor que inflamas nesse lugar recôncavo e eu fico ali, a sugar esse cheiro que fica sempre atrás de ti. Esse onde me afundo e onde imploro por nunca submergir. Tu, que chegaste como uma enfermidade e eu que me deixei contaminar, em cada mísera partícula de sangue que compõe este corpo.

E eu encontrei-me, algures no meio desta insanidade. Deixei que o vício se instalasse e agora alimento-o sem contenção nem pudor. Em todos os olhares que devoram silenciosamente mas sem vergonha. Em todas as mãos que te ensinam a não questionar e em cujos dedos desenhas caminhos que me levam lá.

E eu poderia viver dessa osculação que me persegue ao ritmo das teclas desse piano. Dessa que nunca é igual, mas sempre melhor. Dessa que me faz ouvir o pulsar do teu coração por entre os lábios. Dessa que cala tudo o que já não precisa de ser dito. Dessa que trará sempre este lugar de volta.

E agora o tempo esvai-se. Agora tudo parece um limbo entre este lugar e outro que é ainda tão remoto, tão longínquo. Mas eu ainda estou tão aqui. E ainda é tão doce, que vou ter que (te) sugar até ao fim.

Deste capítulo.

Fractura

Demasiado tarde para ficar, demasiado cedo para partir. De repente o tempo não se vê. Nada o faz parar e ele corre desenfreado, descontrolado, meio eu, meio indomável. Do quadrado, sinto-o fugir-me por entre os dedos, por entre atropelos desajeitados e linhas de fumo que já não me contam histórias.

Esse tempo já não me pertence. O desgaste não me permite força-lo a ficar. E agora é tudo meio insonso, meio lá, meio aqui. Agora é tudo desencontro, tudo complicação, tudo desavença. Meio bobeira, meio sacanagem. E eu, que ainda vou pelo que sinto – soubesse eu ser de outra forma – percebo que fui além dessas palavras e que agora as terei sempre comigo, inscritas na pele e presas nos lábios.

E depois essa saudade. Essa, absurda, impossível de ser lógica. Essa sem sentido nem razão, essa que chega sem convite e se senta para jantar. Essa irracional que me faz sentir falta de algo que ainda está aqui. Essa que cria ausência na presença, que enche tudo de silêncios e que todos os dias dorme comigo. Prostrada, inquieta, impossível de ignorar.

Essa que traz a certeza de que já não haverá tempo, para termos mais tempo.