Fractura

Demasiado tarde para ficar, demasiado cedo para partir. De repente o tempo não se vê. Nada o faz parar e ele corre desenfreado, descontrolado, meio eu, meio indomável. Do quadrado, sinto-o fugir-me por entre os dedos, por entre atropelos desajeitados e linhas de fumo que já não me contam histórias.

Esse tempo já não me pertence. O desgaste não me permite força-lo a ficar. E agora é tudo meio insonso, meio lá, meio aqui. Agora é tudo desencontro, tudo complicação, tudo desavença. Meio bobeira, meio sacanagem. E eu, que ainda vou pelo que sinto – soubesse eu ser de outra forma – percebo que fui além dessas palavras e que agora as terei sempre comigo, inscritas na pele e presas nos lábios.

E depois essa saudade. Essa, absurda, impossível de ser lógica. Essa sem sentido nem razão, essa que chega sem convite e se senta para jantar. Essa irracional que me faz sentir falta de algo que ainda está aqui. Essa que cria ausência na presença, que enche tudo de silêncios e que todos os dias dorme comigo. Prostrada, inquieta, impossível de ignorar.

Essa que traz a certeza de que já não haverá tempo, para termos mais tempo.

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