Cobrir

E mesmo quando é mau, é bom. Mesmo quando me deixas avistar o precipício e depois foges. Mesmo quando me deixas a conter esse calor que inflamas nesse lugar recôncavo e eu fico ali, a sugar esse cheiro que fica sempre atrás de ti. Esse onde me afundo e onde imploro por nunca submergir. Tu, que chegaste como uma enfermidade e eu que me deixei contaminar, em cada mísera partícula de sangue que compõe este corpo.

E eu encontrei-me, algures no meio desta insanidade. Deixei que o vício se instalasse e agora alimento-o sem contenção nem pudor. Em todos os olhares que devoram silenciosamente mas sem vergonha. Em todas as mãos que te ensinam a não questionar e em cujos dedos desenhas caminhos que me levam lá.

E eu poderia viver dessa osculação que me persegue ao ritmo das teclas desse piano. Dessa que nunca é igual, mas sempre melhor. Dessa que me faz ouvir o pulsar do teu coração por entre os lábios. Dessa que cala tudo o que já não precisa de ser dito. Dessa que trará sempre este lugar de volta.

E agora o tempo esvai-se. Agora tudo parece um limbo entre este lugar e outro que é ainda tão remoto, tão longínquo. Mas eu ainda estou tão aqui. E ainda é tão doce, que vou ter que (te) sugar até ao fim.

Deste capítulo.

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