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Irrepreensível

Esse sabor amargo de um abandono a que não se tem escolha. Uma partida a que o meu coração não se consegue habituar. Uma incerteza que dorme ao meu lado e me mantém em sobressalto. Um sentimento de escuridão que me transforma numa criança sem colo. Esse frio que encontrou refúgio nos meus ossos, que me curva e entorpece o equilíbrio.

Uma ansiedade sem nome. Um constante descontrolo do batimento cardíaco. Uma introspeção que me leva de encontro às rochas. Centenas de caminhos sem saída, encruzilhadas e precipícios. Um sem fim de possibilidades que me fogem e que se afundam neste mar que já não me pertence.

Um querer ainda tão pesado. Um desejo que a ausência só inflama. Um cansaço de ti que não chega. E a luz que não reaparece e os cigarros cujo fumo já não te traz. E a vida que se perpetua, que prossegue, que corre. E eu que só me consumo dessa melancolia, dessas últimas horas que me parecerão dias infinitos.

E este mar que já não me acalma. Este mar que já são só memórias dessa selvajaria que chega sempre com o teu abraço. Desse impulso apoteótico de mergulhar mais fundo.

E que volte essa meia-luz. Só mais uma vez.

Chega de saudade

Já sinto falta desse abraço. Esse que encerra todas as discussões. Esse que afasta todas as más interpretações, esse que apaga lugares menos felizes. Esse que será sempre diferente de todos os outros. Um abraço onde te encontrei sempre. Onde ousei dizer-te tudo o que de outra forma nunca será dito.

Já sinto falta desse beijo. Esse das manhãs, que chega sempre com a familiaridade com que os nossos olhos se anunciam. Esse outro, que vem com a brisa que precipita a madrugada. Esse, que serão sempre esses. Esse que não se esgota, que se assume inteiro e que será sempre sôfrego, sedento, insatisfeito. E até do outro, esse que sabe a despedida. Uma despedida que será sempre um simples um hiato. Uma despedida que nunca o será verdadeiramente.

Já sinto falta da inconstância que nos define. Essa que assume a impossibilidade de dias iguais. Essa que odeia rotina. Essa que faz da história um mundo de infinitas possibilidades, um livro onde existirá sempre lugar para mais um capítulo.

E já tenho saudades. E já sinto essa melancolia que não sai de mim / Não sai.

Sidéreo

E eu vejo o tempo fugir-me por entre as mãos. E tento por tudo aprisiona-lo. Guardar o melhor para o fim, mas já não consigo. Nessa ideia vã de o dividir contigo, fiquei só com a minha parte. E essa parcela de tempo, que nunca foi apenas meu, agora é como se não me pertencesse. Desconheço que fim dar-lhe, quando tudo o que dele idealizei, implicaria quatro mãos.

Não posso guardar o que nasceu aqui. Não posso levar na bagagem aquilo que só aqui encontra significado. Aquilo de que apesar das intempéries, não saberia ter negado. Aquilo que mesmo quando foi mau, foi sempre bom. Esse lugar onde nunca permiti que a razão entrasse, esse quadrado onde a minha cabeça nunca morou.

E eu só queria encerrar devidamente o capítulo. Escolher as palavras certas e prolongar indefinidamente o ato. Poder partir cheia dessa estranha cumplicidade, desta história que foi sempre tão simples, quanto o são as coisas que não se planeiam nem se esmiúçam. Essas coisas que fogem ao nosso controlo e que por isso sabem sempre pecaminosamente bem. Essas coisas que as outros que não tu, nunca saberei explicar.

E eu só peço que esse fio de tempo ainda me permita levar apenas isso. Essa infinidade de horas que foram dias e meses de ti. Esse ano de verão contínuo e dessa insularidade que se cola ao corpo.

Epílogo

Talvez no final tudo isto se prolongue no tempo. Talvez no final, a miragem do que foram estes tempos, me obrigue a voltar. Talvez a inquietude permaneça e a vibração dessa terrível insularidade me mantenha sempre alerta. Sempre meio lá, meio aqui. Talvez a história se deva manter ininterrupta. Mantida por encontros clandestinos, viagens sem planos, ligações fora de horas.

Talvez o verdadeiro sentido de tudo isto, esteja na sua ausência. Na forma como nada foi decidido e tudo foi apenas cometido por essa torrente de insanas vontades, por essa fúria de querer tanto. Ou talvez de te querer tanto. Como se pudesse eu fugir de tudo o que se torna por demais evidente. Se as noites já não me trazem descanso e se essa falta de lógica já me parece a minha normalidade.

E se eu ainda fecho os olhos e és tu. E se assumo a loucura de não querer fugir. Essa eterna insatisfação, esse absurdo devaneio. Esse constante ímpeto de ceder. De voltar ao mesmo lugar e fazer tudo de novo. De esgotar todas as forças, de esvaziar todo o ar que vive nos meus pulmões. De ouvir os ossos quebrar, esse esgotamento que se sente no corpo, esse espasmo que nasce e morre com o clímax.

E eu já me vejo do outro lado. Por entre estranhas deambulações, em caminhos que já foram meus e que agora não me pertencerão. E em todas essas ruas, frias e mal iluminadas, eu procurarei a única que não saberei achar. Essa outra, onde nunca morou a razão.

A melhor de todas.

Fulgente

A ausência traz tanto mais do que só silêncio. Traz a estranheza de algo que talvez nunca tenha existido. Traz a distância, e um afastamento que parece a consequência natural do que apenas se sonhou. Traz uma tranquilidade morna a que nunca me saberei habituar. Acalma o desassossego e esvazia o quadrado.

Mas depois a ausência termina e, existem partes de mim que te sentem chegar, horas antes de te ver. E tudo volta. E não há razão nem lógica, nem certo ou errado. Tudo é o que sempre foi, o que talvez sempre fique. Tudo é vontade, instinto, animalidade e fome.

Talvez mais do que isso. Mas nunca mais do que isso.

Vai saber sempre bem voltar a braços que são sempre abraços. A um lugar para onde fugi e onde me fui perdendo e encontrando. A um outro a que me soube entregar, sem romantismos nem antecipações. A um outro a que cheguei, numa total nudez de espírito, impondo uma verdade que nunca foi só minha.

E no meio de todos os atropelos, voltaria sempre a esse lugar. Ansiando sempre a luz desse lado, não exigindo nem questionando mas saboreando sempre, até ao último pedaço.