Monthly Archives: Setembro 2016

Anelante

O meu peito vive em estado de euforia. Ansioso, pessimista, fraco. A minha respiração segue como uma criança que sem saber andar se esforça por correr. É como um fio ínfimo, pouco consistente, rouco.

Ferve. Sem razão aparente que não tu. E eu imagino histórias que me levem para fora daqui. Histórias com finais felizes. Soubesse eu a forma que têm, a que cheiram, a que sabem. Histórias em que tudo isto não é uma mentira. Histórias em que isto não vive apenas em mim.

E eu vou seguindo por um caminho que não escolhi. Um caminho que não é meu e que se esgota numa linha estupidamente reta, sem luz. Um caminho que escurece a minha própria sombra e que me anula até que eu seja transparente.

E esse outro mundo continua lá. Esse onde ainda anseio por acordar. Esse feito de mar, de verde e de vontades que ainda me despertam como se nunca dê lá tivesse saído.

Esse.

Sempre

Sempre soube que ainda se poderia morrer de amor ou de saudades, e agora, todos os dias, enquanto me deito e me obrigo a fechar os olhos, sinto que sucumbi às duas.

Tenho as mãos geladas e o coração numa fome de clausura. Esse frio que vem com a incerteza instalou-se e vai-me arrastando numa melancolia a que não vejo fim. Tudo é passado e todo esse passado me esmaga enquanto presente.

Tu estás em todos as notas de todas as músicas. Em todas as janelas de todos os lugares. Em todas as palavras de todos os livros. E eu ouço-te, vejo-te e leio-te e volto atrás e faço tudo outra vez.

E hoje percebo que o amor pode ser insano e que talvez só esse seja verdadeiramente amor. E hoje percebo que te trouxe e que ainda te quero guardar em mim. Porque ainda me sabes bem. Mesmo longe, mesmo nesse silêncio amargo. Mesmo assim.

Sempre.

A vida inteira

E eu só penso que esse lugar é a minha vida inteira. Que lá ficou o ar que antes me enchia os pulmões. Que lá ficou o meu coração. Ansioso, apaixonado, cheio de vontades e desejos. Impulsos e verdades.

E eu só penso que esse lugar é a minha vida inteira.Todas as minhas horas ficaram ali. Suspensas, estagnadas e fora de mim. Todos os meus dias e as minhas noites. Fugiu tudo para esse quadrado, como forma de protesto e eu fiquei longe de tudo o que era eu.

 E eu só penso que esse lugar é a minha vida inteira. E que aqui não é lugar nenhum. Aqui não há piano, não há quadrado, não há madrugada. Aqui não há esse, mas ainda há a força de o querer.
E o coração pesa e eu volto a fazer a mochila.
Não sei para onde vou, se regresso ou parto, mas sei que aqui já não pertenço e que de outro lado me aguardo.