Monthly Archives: Outubro 2016

Precipitação

A chuva derrete lá fora,

em melodias a que o meu coração sabe dançar.

A chuva acordou e

não se cansa, não cede, e eu ainda me vejo aí.

A chuva chama por mim através da janela e

antecede os teus olhos no fechar dos meus.

A chuva grita em desatino e

traz-te de volta, leva-me de volta. Viajamos.

A chuva reclama esse,

esse abraço, esse beijo, esse cigarro.

A chuva declama saudade,

e não sabe mastigar nada que lhe saiba a fim.

A chuva perpetua esse silêncio,

e esmaga cada um dos meus ossos. Doemos.

Maldita chuva que não cessa lá fora,

em relâmpagos de fome,

em tempestades de volúpia.

Maldita chuva,

que é só sede, és só tu. Somos.

Visceral

Porque ainda sei que foi demasiado bom. Porque de alguma forma que não saberei nunca explicar, eu ainda estou aí. Numa madrugada de excesso ou num domingo preguiçoso. A ouvir a chuva lá fora a trazer só uma linha microscópica de luz, que aquecia esse colo de sofá. Na quebra de um fim de tarde. Num filme que não se consegue ver até ao fim.

Numa pausa para te olhar nos olhos, continuadamente, languidamente, sem intervalos. Para que os vejas a contar-te que não me vou embora, que mesmo quando a porta fechar, eu fico. Para que neles possas ler, que não tenho medo.

Para que neles vejas a sede. Que não se esgota, só se eleva. A vontade de que esta insubordinação seja perpetrada desavergonhadamente, sem pausas, sem mais. A fome que faz o tecido rasgar e que tatua as minhas unhas nas tuas mãos, nas tuas costas, no teu pescoço.

E a terrível falta de tudo isso. O desencontro que sempre existe, entre tudo o que foi e o que ainda virá. O silêncio para que a saudade não se aperte, me aperte, te aperte, mais. E o frio que volta, me curva, me angustia e me enche os dias de uma música cinzenta e monocórdica. Prenúncios de novos lugares mas tudo na corda da espera. E eu que odeio essa espera. E eu sem saber esperar.

E tu nas minhas entranhas a conjugar o verbo ficar.

Altivez

Quando fecho os olhos, faço por abri-los para os teus. E ainda consigo. De todas as vezes. Esses olhos pelos quais me apaixonei, muito antes de tudo o resto. Muito antes de saber ler a cadência da tua respiração. Muito antes de te saber interpretar em cada mudança no teu tom de voz, na geometria do teu sorriso, em tantas meias palavras. Muito antes de haver um antes para nós dois.

E talvez ainda os feche vezes demais. Numa vontade que ainda é um descontrolo. Num impulso que varre qualquer vestígio de sanidade ou razão. E quanto mais os fecho, mais anseio por voltar a fecha-los. E quando mais o fecho, mais me perco. Porque começo por voltar lá e por lamber tudo o que ainda tem a mesma vontade. E porque acabo ainda lá, criando novos diálogos, novos abraços, novas manhãs.

Mas ainda não consigo ouvir o piano. Porque ele traz mais que a memória, mais que a saudade. Ele traz só inconstância, só anseio, só incerteza. E o mesmo piano que me fazia o coração dançar, agora só o faz doer. E eu vou evitar essa dor, sabendo que aceita-la seria aceitar um fim. E nos meus olhos, ainda tudo são recomeços.

E quando mais uma noite se encerra, eu volto a cerrá-los. E tu apareces, nessa altivez sempre provocatória, nesse teu ar meio vagabundo, meio pueril.

E tudo volta ao primeiro capítulo, de onde não quero sair.

Amplexo

Como se o tempo te pudesse apagar. Como se o tempo pudesse esgotar-te de mim.Como se a distância servisse de fuga. Como se o esvaziamento físico pudesse roubar-te. Como se por não te verem os meus olhos, eu não te sentisse mais. Como se nada. Porque ainda tudo.

A distância inflama o que foi bom e varre tudo o resto. E quando se instala, todos os contornos se transformam e tudo se cola em mim, porque tudo é doce. Porque os teus lábios ainda me desenham vontades no pescoço. E a tua voz é ainda um sussurro que chega por detrás do piano.

E tudo aqui dentro ainda te deseja. Ainda te procuro em todos os banhos de mar, ansiando para que este mar não seja distante do teu. E tu já és palavras sem fim, nesta história de avanços e recuos, onde nunca poderá haver um último capítulo.

Se fechares os olhos, ainda me vês nesse quadrado, porque de alguma forma, nunca de lá saí. Deixei tudo o que nunca saberia trazer. Deixei-me algures lá, por detrás do fumo de um outro cigarro, a sorver a tua luz e a escrever-te tudo isto com a respiração. 

E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta.”