Altivez

Quando fecho os olhos, faço por abri-los para os teus. E ainda consigo. De todas as vezes. Esses olhos pelos quais me apaixonei, muito antes de tudo o resto. Muito antes de saber ler a cadência da tua respiração. Muito antes de te saber interpretar em cada mudança no teu tom de voz, na geometria do teu sorriso, em tantas meias palavras. Muito antes de haver um antes para nós dois.

E talvez ainda os feche vezes demais. Numa vontade que ainda é um descontrolo. Num impulso que varre qualquer vestígio de sanidade ou razão. E quanto mais os fecho, mais anseio por voltar a fecha-los. E quando mais o fecho, mais me perco. Porque começo por voltar lá e por lamber tudo o que ainda tem a mesma vontade. E porque acabo ainda lá, criando novos diálogos, novos abraços, novas manhãs.

Mas ainda não consigo ouvir o piano. Porque ele traz mais que a memória, mais que a saudade. Ele traz só inconstância, só anseio, só incerteza. E o mesmo piano que me fazia o coração dançar, agora só o faz doer. E eu vou evitar essa dor, sabendo que aceita-la seria aceitar um fim. E nos meus olhos, ainda tudo são recomeços.

E quando mais uma noite se encerra, eu volto a cerrá-los. E tu apareces, nessa altivez sempre provocatória, nesse teu ar meio vagabundo, meio pueril.

E tudo volta ao primeiro capítulo, de onde não quero sair.

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