Visceral

Porque ainda sei que foi demasiado bom. Porque de alguma forma que não saberei nunca explicar, eu ainda estou aí. Numa madrugada de excesso ou num domingo preguiçoso. A ouvir a chuva lá fora a trazer só uma linha microscópica de luz, que aquecia esse colo de sofá. Na quebra de um fim de tarde. Num filme que não se consegue ver até ao fim.

Numa pausa para te olhar nos olhos, continuadamente, languidamente, sem intervalos. Para que os vejas a contar-te que não me vou embora, que mesmo quando a porta fechar, eu fico. Para que neles possas ler, que não tenho medo.

Para que neles vejas a sede. Que não se esgota, só se eleva. A vontade de que esta insubordinação seja perpetrada desavergonhadamente, sem pausas, sem mais. A fome que faz o tecido rasgar e que tatua as minhas unhas nas tuas mãos, nas tuas costas, no teu pescoço.

E a terrível falta de tudo isso. O desencontro que sempre existe, entre tudo o que foi e o que ainda virá. O silêncio para que a saudade não se aperte, me aperte, te aperte, mais. E o frio que volta, me curva, me angustia e me enche os dias de uma música cinzenta e monocórdica. Prenúncios de novos lugares mas tudo na corda da espera. E eu que odeio essa espera. E eu sem saber esperar.

E tu nas minhas entranhas a conjugar o verbo ficar.

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