Monthly Archives: Dezembro 2016

Desenfreado

Talvez fique apenas,

a surdez de uma manhã de domingo embriagado.

A suspensão súbita do meu batimento cardíaco,

um leve desmaio, ou

o entorpecimento indolor de cada lugar de mim

ao ver-te chegar.

A insaciedade do meu corpo,

na constante exaltação do teu.

A carência súplice do teu exterior

pelo meu interior.

A fome dos teus lábios,

a sorver uma vontade aquosa

que emergia dos meus.

A pertinência dessa cobiça,

a nossa alarvidade de ser.

E esse teu vagar méleo,

que nunca me soube cansar.

Ouarzazate

Nessa imensidão de silêncio frio,

imaginei as tuas mãos,

até ao mais ínfimo do seu detalhe,

e esgotei-as de encontro ao meu ventre.

Senti o desconforto de um suor abundante e

as mãos trémulas por te encontrar ali,

tão longe de tudo, preso no lugar mais solitário do mundo.

Vi um passado onde ainda habito,

em cada linha do horizonte,

em cada tonalidade de nascer do sol,

em cada ponto de luz daquele céu.

E senti falta de sermos um verbo copulativo.

Falta de um quadrado à beira-mar.

Da ausência de razão, nessa casa à meia-luz.

E assumi, perante a vastidão desse lugar remoto,

no meio dessa aridez desconcertante,

no meio da minha fuga,

com o meu coração insano e desobediente por entre as mãos,

que ainda sim.