Monthly Archives: Junho 2017

Grito 

Como se apenas a força do ar,

trouxesse o rompimento dos nervos. 

Uma espécie de erosão,

vinda de um mar revolto,

que só existe aqui dentro. 

Porque é um mar sem costa,

um mar sem descanso, 

sem coração,

um mar inaudível. 

É um cansaço sem razão, 

um esgotamento que aflige as entranhas,

e que se anuncia na perpetuação mecânica

de todas as horas do dia.

E quantas infinitas horas poder ter apenas um dia. 

E quão ensurdecedor pode ser o seu silêncio. 

Insigne

Reconheço-o no estranho resfolegar das manhãs que nascem de noites sem sonhos.

Na preguiça dos corpos cansados e no anseio pelo falecimento dos ponteiros. 

Na tua mão no meu cabelo e nas janelas onde só cabe mar. 

Vejo-o com uma nitidez de espelho, enquanto me esperas com a mesma ânsia do primeiro beijo. 

De cada vez que a saudade se torna constante porque as horas nunca chegam e as noites nunca se eternizam. 

Quando percebo que o amor cabe perfeitamente dentro deste coração agora lúcido. 

É essa afinal, a estranha lucidez, do que se assume indubitável.