Monthly Archives: Agosto 2017

Apogístico

Encontrei-te no avesso das palavras. 

Na estranheza dos teus silêncios, 

no fumo de infinitos pensativos cigarros. 

Na melancolia de tantas noites

consumidas de olhos abertos, 

nessa inebriação de um mundo sem verdade. 

Abri a janela desse quarto lúgubre,

levei apenas amor como bagagem 

e instalei ali o meu lado esquerdo. 

Hoje o silêncio já não dói, 

as palavras são redondas e inteiras.

Criaste uma língua nova,

indecifrável a outros ouvidos,

única na definição do que se concebe intergalático.

E agora já quase não me cabes no peito, 

e agora todos os dias são verão. 

E agora da janela, só mar. 

Infinito, imperioso, impenetrável. 

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Impulsão 

Talvez o amor seja afinal apenas isso. 

Um alheamento anormal do ser

a dar lugar a um estar em definitivo. 

A busca incessante por um colo,

a que no fechar perpétuo das cortinas,

na incerteza de um lugar sumido,

possamos chamar de casa. 

A serenidade de um silêncio 

que se encerra em duas bocas fechadas 

e que num vagar melífluo,

nos aquece o lado esquerdo. 

A cadência perfeita que se assume

na certeza de um regresso, 

ou na plena assunção de uma única verdade. 

Uma linguagem não verbal

que se anuncia na metamorfose de tantos outros sentidos. 

Esse sabor amentolado e pueril

que chega mágico, cândido,

como o primeiro beijo.