Monthly Archives: Novembro 2017

Veneziana

Meio amor,

meio lugar de assombro.

Uma estranha segunda pele,

que no fundo não nos serve.

Uma ampliação do ser,

numa ausência do estar.

Uma incansável busca semântica,

entrecortada pelos paradigmas de uma suposta verdade.

Uma alegada conformidade com a realidade,

vencida pelo cansaço extremo do invisível.

Como se nos fosse legítimo falar de axiomas

quando o amor se reveste de tão poucas certezas.

Criação de dogmas,

para uma linguagem que no fundo

não se traduz em palavras.

E o fruto de toda essa inquietação

a chegar em desalinho.

Um frio boreal,

que desconcerta os colarinhos que se querem sempre aprumados.

Um coração de eterno inverno,

que nunca se resigna

e que se deita sempre sequioso,

pela possibilidade de uma manhã de sol.

 

 

Anúncios

Debandada

E eu fujo,

dessa estranha efemeridade,

perniciosa dos lugares comuns.

Do vazio desses lugares sem eco,

onde o uníssono se perpetua,

pela simples falta de assunto

ou pela condescendente exaltação do óbvio.

Chinfrins desgovernados,

presos a línguas perversas,

talvez entediados de vidas insossas,

talvez sedentos de alguma acidez maliciosa.

Juizes numa terra sem lei,

crentes numa fé sem Deus.

E lá os vejo seguir,

ridiculamente articulados,

em gestos mecânicos, padronizados,

aprendidos pela mesma cartilha.

E eu fujo desse lugar,

e corro pelo tal caminho tortuoso,

mais queimado pelo sol,

certamente menos distinto,

mas onde as palavras são lugares

e o coração me serve de bússola.