Monthly Archives: Janeiro 2018

Lacre

Selo as palavras dentro do envelope.

Como se lá pudesse depositar parte do coração.

Como se fosse cirurgicamente possível

entregar-te o que sinto,

por entre artérias, aurículas e vasos sanguíneos.

Transformar este batimento de corredor,

em possíveis linhas de desabafo.

Desobstruir de leve esse aperto,

esse espaço vazio em que ecoa a tua voz.

Transformar saudades em advérbios e

desejos em fúrias de adjetivos.

Criar relógios imaginários

que se movem com a força do querer.

E da lonjura fazer iminência.

Ousando de métodos temerários

para que o norte nunca se dissipe

e o plano nunca se altere.

Anúncios

Ademonia

Essa sensação acre

de torrentes de palavras vagas,

discursos néscios,

verborreias do absurdo.

Gritarias sem norte,

onde se imploram absolvições

por meio de insultos.

Onde se esgotam fôlegos,

se cantam impropérios

e pelo meio do cansaço,

não se vencem guerras nem batalhas.

A interferência constante,

como se duas línguas diferentes se digladiassem,

na esperança vã de uma vitória que nunca se anunciará.

E no final do dia,

o derrube pelo esgotamento.

A finitude dos movimentos,

e a trepidez das coronárias

a roubar-nos a possibilidade de atingirmos a desejada insensibilidade dos sentidos.