Monthly Archives: Fevereiro 2018

Remédio

E eu escrevo e rescrevo, guiada pela fome insana de não poder ver a forma do que sinto. Implorando ao contorno das palavras, significados que não se esgotem, e que cheguem palpáveis à palma das minhas mãos. Como se pela textura do imaginário que vou dedilhando, um mundo se possa de facto construir. Como se nesse terreno árido, forrado a anseios e melancolia, se possa ver nascer, o que ainda eu não vivi.

E são infinitudes de linhas que se desgastam em folhas de papel amarelado pelo sol que rasga esta janela todas as manhãs. São corredores de conversas que não ouvi mas escutei, nessas tardes sem fim, presa no tempo com uma chávena de café entre os dedos como uma prece.

E é sempre no anúncio do que vive sem previsão, que ouço um piano ao fundo, enquanto ensopo inquietação por meio de versos de amor ou em forma de crónicas de novos começos. E soubesse eu explicar o porquê desta estranha cura, que me traz a literatura em forma de substância medicamentosa, e que eu vou tomando em porções não prescritas.

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Pyar

Love is strange.

Unreal ike an hallucination,

unexpected like a typhoon.

 

Sometimes is a mere void,

an imminent abyss,

or a window that you cannot open.

Like a shapeless unsounded dream,

a black and white tv,

or a Monday morning.

 

Love is alien.

Like a foreign country,

a Chinese book,

or a flavor your tongue cannot identify.

 

Love is an undecipherable riddle.

And its the only thing

that even when its bad,

can taste good.

 

 

 

14

Não lhe reconheço força

nem pureza.

O que por aqui enxergo

é mais uma exibição ridícula,

quase pueril

por ser ainda tão vazia de sentido,

quase teatral

por ter tão pouco de verdade.

Estranha parafernália essa,

de um mundo tão distante

que se poderia pintar apenas de rosa e encarnado.

Como se por obra do divino ou do acaso,

todos tivéssemos escolhido hoje, para gritarmos ao mundo,

o que nos vai ao peito.

Como se o amor pudesse ser rótulo,

como se o que não se explica

pudesse agora ser de encomenda,

neste estranho mundinho de one size fits all. 

E eu fujo

desta encenação que me fere a vista,

onde se vende amor de trazer por casa

ainda a preço de saldo.

Porque hoje,

como em todos os outros dias,

tenho o coração em aplasia

e a saudade ainda não tem tradução.

 

 

Habitáculo

E de repente,

o verão é a única estação do ano.

Mesmo quando a chuva cai

em torrentes apocalípticas,

mesmo quando todos os telhados se fazem brancos,

ou mesmo, quando eu e uma botija de água quente,

nos transformamos num único ser.

Mesmo quando a distância

não se dobra,

e os dias,

correm penosamente longos.

Mesmo quando tudo o que é palpável

parece tão longínquo

e os planos, são só planos.

Listas infindáveis de vontades em papel

e as folhas no calendário estáticas.

Mesmo quando tudo parece em suspenso

mesmo quando vivemos em espera

e o tempo se move a duas velocidades diferentes.

Mesmo assim,

continuas a saber-me a mar.

 

Esteio

É um nano segundo.

Tão ínfimo como

uma micro partícula de ar atmosférico

a criar revolta por entre as folhas queimadas

de um inverno demasiado espesso.

Tanto de breve como de instantâneo,

como esse primero café,

numa noite de frio polar,

onde as horas nos escaparam por entre os dedos

e o locutor de rádio se calou

para nos ouvir divagar sobre tudo e sobre nada.

Quase microscópico,

invisível aos olhos,

passível de ser mágico

e de pertencer a outros mundos não terrestres.

 

Mas nesse compasso de tempo,

cabe de repente o meu mundo inteiro,

e quão pesado é já esse mundo que carrego.

E pela primeira vez,

eu sinto onde me pertenço.

Sinto que o amor não tem morada.

E que contigo,

cheguei finalmente a Casa.

Hiperfísico

A ausência pode mesmo ser

um mero fio de fumo nos confins do mar.

Porque hoje constato que é possível

haver uma presença constante,

mesmo que impalpável,

mesmo que quase fantasmagórica.

Transmitida por estranhos fios condutores,

captada apenas e só através desses estranhos satélites,

que habitam no lado esquerdo do nosso peito.

Uma experiência extrasensorial,

onde o longe se faz perto

e onde a solidão se dissipa

como a morte da neve que nos escorre pelos ombros,

nessas sombrias manhãs polares.

 

Esdrúxulo

Primeiro fôlego,

acre, meio agreste.

Semblantes cinzentos,

pintados de uma palidez sinistra,

meio fantasmagórica, meio digna de tempos longínquos.

um frio que desenha caminhos sinuosos nas palmas das mãos.

Um estranho encontro entre passado e futuro,

arquitetura e globalização.

Num segundo fôlego,

já se vislumbra um pedaço de sol

por entre um reino governado por nuvens.

E eu percebo que este amor será difícil

mas que no meio de uma praça pode acontecer um arco-íris.

Percebo que voltei a escrever na rua,

no velho caderninho, num banco de jardim,

sorvendo a envolvência e sugando vidas alheias.

Percebo que este lugar de silêncio ensurdecedor,

talvez seja agora o meu lugar.