Remédio

E eu escrevo e rescrevo, guiada pela fome insana de não poder ver a forma do que sinto. Implorando ao contorno das palavras, significados que não se esgotem, e que cheguem palpáveis à palma das minhas mãos. Como se pela textura do imaginário que vou dedilhando, um mundo se possa de facto construir. Como se nesse terreno árido, forrado a anseios e melancolia, se possa ver nascer, o que ainda eu não vivi.

E são infinitudes de linhas que se desgastam em folhas de papel amarelado pelo sol que rasga esta janela todas as manhãs. São corredores de conversas que não ouvi mas escutei, nessas tardes sem fim, presa no tempo com uma chávena de café entre os dedos como uma prece.

E é sempre no anúncio do que vive sem previsão, que ouço um piano ao fundo, enquanto ensopo inquietação por meio de versos de amor ou em forma de crónicas de novos começos. E soubesse eu explicar o porquê desta estranha cura, que me traz a literatura em forma de substância medicamentosa, e que eu vou tomando em porções não prescritas.

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