Mais amor

Porque só o amor

se cura com mais amor.

Essa total desorientação dos sentidos.

Esse constante estado de embriaguez,

essa volúpia que nos consome, e a sede,

a sede que não se mata.

Uma profusão de agoras,

sem força para depois.

Um coração de carrossel,

um querer de miúdo.

Um desassossego intermitente,

em sonhos de mãos fechadas.

Um resfolgar depois da euforia,

da saturação dos corpos

e das bocas que se cansam sequiosas.

E sempre um pouco mais.

Que amor não esgota.

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Emanação

Pudesse eu almejar um caminhar presciente.

Que me devolvesse o sono,

me embalasse entre melodias melífluas

e me roubasse o frio.

Por entre madrugadas de cafuné,

amor e divagações de elástico.

Como as horas que em ti nunca me sobram.

Porque a doçura do encantamento e

a puerilidade dos primeiros passos,

nos embriaga de vontades mais espessas.

De anseios insensatos

e de quereres mais urgentes.

Como quando chegas desaforado e te esgotas em mim.

Mas a insónia chega,

arrasta-me pelo caminho do incerto

e eu deixo que ela me afunde,

por entre questionamentos insolúveis,

e lugares lúgubres e vacilantes.

Fecho os olhos e rogo,

vem depressa.

Idiossincrático

Esse sabor meio agreste,

do que chega sem chegar.

Um desejo meio difuso,

ainda inconsistente,

nervoso.

Um querer que não se sabe camuflar,

genuinamente pueril,

mas terno.

Tão doce quanto tudo o que aparece sem aviso,

quanto tudo o que nos inquieta, e de repente,

nos deixa entre a trepidez e o desassossego.

Esse sabor do que é novo,

do que ainda não se contaminou,

do que ainda não é palpável.

A desorientação de um lugar desconhecido,

pelo qual já se anseia quando a noite cai.

Esse sabor de querer

sem questionar a lógica.

Mas querer.

Desenfreado

Talvez fique apenas,

a surdez de uma manhã de domingo embriagado.

A suspensão súbita do meu batimento cardíaco,

um leve desmaio, ou

o entorpecimento indolor de cada lugar de mim

ao ver-te chegar.

A insaciedade do meu corpo,

na constante exaltação do teu.

A carência súplice do teu exterior

pelo meu interior.

A fome dos teus lábios,

a sorver uma vontade aquosa

que emergia dos meus.

A pertinência dessa cobiça,

a nossa alarvidade de ser.

E esse teu vagar méleo,

que nunca me soube cansar.

Ouarzazate

Nessa imensidão de silêncio frio,

imaginei as tuas mãos,

até ao mais ínfimo do seu detalhe,

e esgotei-as de encontro ao meu ventre.

Senti o desconforto de um suor abundante e

as mãos trémulas por te encontrar ali,

tão longe de tudo, preso no lugar mais solitário do mundo.

Vi um passado onde ainda habito,

em cada linha do horizonte,

em cada tonalidade de nascer do sol,

em cada ponto de luz daquele céu.

E senti falta de sermos um verbo copulativo.

Falta de um quadrado à beira-mar.

Da ausência de razão, nessa casa à meia-luz.

E assumi, perante a vastidão desse lugar remoto,

no meio dessa aridez desconcertante,

no meio da minha fuga,

com o meu coração insano e desobediente por entre as mãos,

que ainda sim.

Fátuo

Anseio pelo dia

em que a tua nudez não me incite.

Não me tente

num vernáculo ostensivamente lúbrico.

Não me transforme a carne

em lava incandescente.

O pulsar num tremor ígneo.

As mãos num movimento súplice,

os joelhos em genuflexo,

e o coração aturdido, claudicante,

ofegoso.

E na loucura de ansiar o que não chega,

o que nunca chegará,

sonho que voltes.

E que essa nudeza

seja tudo o que existe.

Que a minha boca não se abra

pelo sufoco da tua.

Que os teus dedos me cheguem,

perdulariamente.

Que os teus olhos

se mantenham petulantes

e o teu sorriso sempre lascivo,

devasso,

infiel.

Concupiscência

A alarvidade dos teus olhos

a chegar como o inverno aos meus lábios,

a cravá-los dessa fissuração,

cálida e inteira.

E nessa dose perfeita de dor e prazer,

o sabor acre do sangue.

A aspereza da tua pele,

a tua língua infinda,

e o meu corpo em propulsão,

sempre exigente,

sempre insaciado.

E algures nesse lugar nosso,

numa mísera partícula de tempo,

o teu olhar claudicante

e a minha exasperação.

E o meu esgar,

para um segundo de fingimento,

para que o encantamento não se dissipe,

nunca se dissipe.

Porque a fúria desse desejo

é inacabável,

como o flauteio que ouço,

quando te entressonho.

Lado esquerdo

Esse coração que me sabia a mar revolto,

a naufrágios, tempestades e tumultos.

A tua língua em tom de vilipêndio

e o som anelante do descerrar dos botões.

A frialdade da parede nas minhas costas

e a dança de desassossego das tuas mãos.

E a orla dos teus dedos a desenhar labirintos,

na linha de flexão da coxa sobre o abdómen.

A sofreguidão do ar que só se expelia

e que morria na linha que une duas bocas.

E bem no ponto do fenecimento,

eu ansiava finalmente o derradeiro início.

O calor desse amplexo a trazer o desvelo dos teus braços.

Um silêncio partilhado,

doce, cúmplice, inteiro.

Esse coração navegador,

a dormir ao colo do meu.

Preâmbulo

Foi imediato o torpor do coração. Meros segundos, partículas microscópicas de tempo, a viagem de uma brisa que chega com o prenúncio da noite e eu estava rendida. Nada voltaria a ser como dantes porque esse agora era absoluto, era perigosamente portentoso, era meio que perfeito. O dantes seria apenas o antes daquele momento, uma outra vida de significado vago, insonso, quase oco.

Esse agora era tudo o que havia e melhor, era tudo o que poderia vir a ser. As noites eram feitas de matérias luxuosamente imaginadas, sonhos mirabolantes, possibilidades sem muros e o meu coração pulsava, cheio de uma curiosidade pueril, ansioso porém corajoso. As manhãs pareciam sempre demasiado longínquas e o tempo sempre escasso para tantas vontades.

Afinal viver era essa fúria e o sangue pulsava tão desenfreado que transformava o antes num qualquer chiste de boteco, ridicularizava-o até que ele me fugisse e eu lhe perdesse forma, contornos, traço. Esse agora era tudo o que havia e eu seria dele, submissa, fiel, amante.

Esse agora parece-me já meio tosco. Esforço-me incessantemente para que não fuja, alimento-o, dou-lhe guarida e em silêncio dedico-lhe o meu compromisso. Ainda me lembro do seu olhar jupiteriano e ao lembrá-lo ainda me rendo. Como se o amanhã me pudesse trazer tudo de volta e levar esta desdita que chegou pela mão do inverno e que se instalou aqui, em mim. Dentro.

Desafinado

Anseio por essas manhãs lânguidas, no espraiar desses lençóis, em tom desafinado. A rouquidão da tua voz ainda morna, ainda cheia de fumo e cansaço de noites vividas ao avesso. Manhãs que poderiam ser dias inteiros, fossem elas do tamanho da vontade que as construía, do desejo que as precipitava.

Sonho com conversas talhadas por olhares que se inflamavam, por silêncios carregados de significados que para sempre neles se encerrarão. Nostalgia desse sofá, que habitava num quadrado, onde a única realidade que nele havia, só cabia em duas cabeças sem razão. O som de um piano que me faria sempre voltar e consumar tudo de novo.

Alimento a fome de um abraço que me trazia de volta a mim. Da insensatez dos lábios que nos meus lábios não se esgotavam. De haver mar no meio de tudo isto. Da singularidade dos teus passos lá fora, de uma porta que se abria mais do que fechava. De tantas horas de um confinamento edificado a libertinagem e dessa boa vulgaridade de corpos nus.

O sabor de um reencontro na sequência de uma infinidade de palavras que ninguém ousou dizer. De um diálogo que se subentende na estranha cumplicidade de uma história invulgar. Na força de um impulso que corre sem rédeas, num compasso binário, livre, porém desenfreado.