Devasso

 Talvez o frio me esconda, 

num anseio triste 

de quem padece de mal anónimo. 

Uma estranha aridez,

de um coração estrangeiro,

feito de língua marciana 

e de mecânica deficiente. 

Um lugar de sobressalto,

intempéries verborrágicas 

e solidão estéril. 

O pensamento entorpecido 

por uma imensidão de palavras

que morrem ainda no estômago. 

E essa intermitente forma de ser,

de quem sonha acima das nuvens 

mas com a pulsação irresoluta, 

implora por não crescer. 

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Prematuro

Um fulgor desajeitado,

nuns olhos de cardamomo.

Um querer exacerbado

que não sabe ter forma,

que se assume presunçoso,

mas que não sabe encher palavras em matérias.

Um desejo cego,

escarpado, animal.

A impertinência pelo imediato,

como se o agora fosse um lugar de posse.

A trepidez das divagações,

carregadas de verdades, mesmo que pueris

mas ainda sem madureza.

A respiração sempre anelante,

sempre incerta, sempre canhestra.

O discurso aliterante

de mão dada à demoníaca dança da dúvida.

E esse lugar de eterna fome,

esse ermo asfíxico,

onde se refugia o talvez.

Cupidinoso

Talvez te esgote,

na força das vontades.

No ímpeto desse querer absoluto

que não deixa que me sobres.

Na correria dessas horas

e na luta inglória,

de implorar que não se apressem.

E pudesse eu,

alcançar-te num hiato de tempo.

Numa fuga do pêndulo,

e aprisionar-te nesse lugar

onde os ponteiros seriam estáticos,

e onde te poderia degustar devagar.

Nesse tal lugar,

onde o tempo poderia ser finalmente

uma série ininterrupta e eterna de instantes,

e tu o colo,

e a infinitude das horas vagas.

 

 

 

 

 

Mais amor

Porque só o amor

se cura com mais amor.

Essa total desorientação dos sentidos.

Esse constante estado de embriaguez,

essa volúpia que nos consome, e a sede,

a sede que não se mata.

Uma profusão de agoras,

sem força para depois.

Um coração de carrossel,

um querer de miúdo.

Um desassossego intermitente,

em sonhos de mãos fechadas.

Um resfolgar depois da euforia,

da saturação dos corpos

e das bocas que se cansam sequiosas.

E sempre um pouco mais.

Que amor não esgota.

Emanação

Pudesse eu almejar um caminhar presciente.

Que me devolvesse o sono,

me embalasse entre melodias melífluas

e me roubasse o frio.

Por entre madrugadas de cafuné,

amor e divagações de elástico.

Como as horas que em ti nunca me sobram.

Porque a doçura do encantamento e

a puerilidade dos primeiros passos,

nos embriaga de vontades mais espessas.

De anseios insensatos

e de quereres mais urgentes.

Como quando chegas desaforado e te esgotas em mim.

Mas a insónia chega,

arrasta-me pelo caminho do incerto

e eu deixo que ela me afunde,

por entre questionamentos insolúveis,

e lugares lúgubres e vacilantes.

Fecho os olhos e rogo,

vem depressa.

Idiossincrático

Esse sabor meio agreste,

do que chega sem chegar.

Um desejo meio difuso,

ainda inconsistente,

nervoso.

Um querer que não se sabe camuflar,

genuinamente pueril,

mas terno.

Tão doce quanto tudo o que aparece sem aviso,

quanto tudo o que nos inquieta, e de repente,

nos deixa entre a trepidez e o desassossego.

Esse sabor do que é novo,

do que ainda não se contaminou,

do que ainda não é palpável.

A desorientação de um lugar desconhecido,

pelo qual já se anseia quando a noite cai.

Esse sabor de querer

sem questionar a lógica.

Mas querer.

Desenfreado

Talvez fique apenas,

a surdez de uma manhã de domingo embriagado.

A suspensão súbita do meu batimento cardíaco,

um leve desmaio, ou

o entorpecimento indolor de cada lugar de mim

ao ver-te chegar.

A insaciedade do meu corpo,

na constante exaltação do teu.

A carência súplice do teu exterior

pelo meu interior.

A fome dos teus lábios,

a sorver uma vontade aquosa

que emergia dos meus.

A pertinência dessa cobiça,

a nossa alarvidade de ser.

E esse teu vagar méleo,

que nunca me soube cansar.

Ouarzazate

Nessa imensidão de silêncio frio,

imaginei as tuas mãos,

até ao mais ínfimo do seu detalhe,

e esgotei-as de encontro ao meu ventre.

Senti o desconforto de um suor abundante e

as mãos trémulas por te encontrar ali,

tão longe de tudo, preso no lugar mais solitário do mundo.

Vi um passado onde ainda habito,

em cada linha do horizonte,

em cada tonalidade de nascer do sol,

em cada ponto de luz daquele céu.

E senti falta de sermos um verbo copulativo.

Falta de um quadrado à beira-mar.

Da ausência de razão, nessa casa à meia-luz.

E assumi, perante a vastidão desse lugar remoto,

no meio dessa aridez desconcertante,

no meio da minha fuga,

com o meu coração insano e desobediente por entre as mãos,

que ainda sim.

Fátuo

Anseio pelo dia

em que a tua nudez não me incite.

Não me tente

num vernáculo ostensivamente lúbrico.

Não me transforme a carne

em lava incandescente.

O pulsar num tremor ígneo.

As mãos num movimento súplice,

os joelhos em genuflexo,

e o coração aturdido, claudicante,

ofegoso.

E na loucura de ansiar o que não chega,

o que nunca chegará,

sonho que voltes.

E que essa nudeza

seja tudo o que existe.

Que a minha boca não se abra

pelo sufoco da tua.

Que os teus dedos me cheguem,

perdulariamente.

Que os teus olhos

se mantenham petulantes

e o teu sorriso sempre lascivo,

devasso,

infiel.

Concupiscência

A alarvidade dos teus olhos

a chegar como o inverno aos meus lábios,

a cravá-los dessa fissuração,

cálida e inteira.

E nessa dose perfeita de dor e prazer,

o sabor acre do sangue.

A aspereza da tua pele,

a tua língua infinda,

e o meu corpo em propulsão,

sempre exigente,

sempre insaciado.

E algures nesse lugar nosso,

numa mísera partícula de tempo,

o teu olhar claudicante

e a minha exasperação.

E o meu esgar,

para um segundo de fingimento,

para que o encantamento não se dissipe,

nunca se dissipe.

Porque a fúria desse desejo

é inacabável,

como o flauteio que ouço,

quando te entressonho.